\

5 profissionais que devem ganhar espaço no mercado do futuro

Em uma publicação no X, Boris Cherny, criador do Claude Code, propôs uma reflexão sobre o futuro das funções profissionais. Ao observar a própria equipe, ele identificou cinco arquétipos que atravessam áreas tradicionais como engenharia, produto, design e ciência de dados: Prototyper (Prototipador), Builder (Construtor), Sweeper (Simplificador), Grower (Desenvolvedor) e Maintainer (Mantenedor).

A ideia central é simples, mas suas implicações são profundas. Em vez de organizar o trabalho exclusivamente por especialidades, as empresas poderiam passar a reconhecer diferentes formas de contribuição para o ciclo de vida de um produto. Afinal, nem todo engenheiro atua da mesma maneira, assim como nem todo designer, profissional de produto ou cientista de dados desempenha o mesmo papel na criação de valor.

A proposta de Cherny ajuda a iluminar uma mudança que já está em curso. À medida que a inteligência artificial automatiza tarefas, acelera ciclos de desenvolvimento e reduz as fronteiras entre disciplinas, o que diferencia um profissional deixa de ser apenas o domínio técnico. Passa a importar, cada vez mais, a capacidade de imaginar, construir, simplificar, fazer crescer e sustentar.

A seguir, compartilho minha visão sobre as características e funções que permeiam cada arquétipo.

Prototyper (Prototipador): transformar possibilidades em aprendizado

O Prototyper (Prototipador) é aquele que imagina possibilidades e transforma hipóteses em experimentos. É a pessoa que enxerga caminhos antes que eles estejam claramente mapeados. Seu trabalho envolve curiosidade, velocidade e tolerância ao erro.

Sua função é descobrir rapidamente se uma ideia merece continuar viva. Ele pode testar uma nova interface, criar uma demonstração, simular um modelo de negócio ou desenvolver uma solução rudimentar para observar a reação dos usuários.

Em ambientes de inovação, esse perfil é essencial porque impede que a organização passe meses aperfeiçoando uma hipótese que nunca foi validada. O protótipo funciona como uma lanterna em uma estrada escura: não ilumina todo o caminho, mas revela os próximos metros.

Builder (Construtor): transformar uma ideia em realidade

O segundo arquétipo é o Builder (Construtor), responsável por transformar uma ideia promissora em produto, serviço ou infraestrutura capaz de funcionar no mundo real. Se o Prototipador acende a faísca, o Construtor desenvolve a máquina.

Esse profissional precisa lidar com complexidade, integração, qualidade, segurança, custos e experiência do usuário. Sua entrega não é apenas uma demonstração convincente, mas uma solução confiável o suficiente para ser utilizada por pessoas reais, dentro de restrições reais.

O Construtor representa uma competência particularmente valiosa em empresas que produzem muitos conceitos, mas têm dificuldade de executá-los. 

Sweeper (Simplificador): retirar o que perdeu sentido

O Sweeper (Simplificador) limpa a casa depois que a novidade chega. Simplifica a experiência, reduz o código desnecessário, elimina funcionalidades que perderam sentido, melhora a performance e torna o sistema mais compreensível.

Em muitas organizações, existe uma tendência de associar evolução à adição. Mais funcionalidades, mais telas, mais processos e mais camadas de controle. O Simplificador atua na direção contrária. Ele entende que, em determinados momentos, avançar significa retirar.

Grower (Desenvolvedor): ampliar a aderência ao mercado

O quarto perfil é o Grower (Desenvolvedor), que assume um produto já construído e trabalha para melhorar sua aderência ao mercado. Seu foco está na aprendizagem contínua sobre clientes, comportamento, posicionamento e proposta de valor.

O Desenvolvedor observa o que está funcionando, identifica pontos de fricção e testa caminhos para aumentar adoção, retenção e relevância. 

Esse profissional compreende que encontrar o Product-Market Fit, ou aderência entre produto e mercado, não é o fim da jornada. Em mercados dinâmicos, essa conexão precisa ser renovada continuamente. Mudam as necessidades dos clientes, surgem concorrentes, aparecem novas tecnologias e determinados diferenciais se tornam commodities.

Maintainer (Mantenedor): sustentar a confiança em escala

Por fim, há o Maintainer (Mantenedor), responsável por garantir que um sistema maduro permaneça seguro, confiável, eficiente e sustentável à medida que cresce. Seu trabalho raramente produz manchetes, mas sua ausência pode provocar crises.

O Mantenedor cuida da resiliência. Monitora riscos, aperfeiçoa processos, fortalece controles e prepara a operação para situações que talvez nunca aconteçam. É o profissional que entende que reputação, confiança e continuidade são ativos construídos silenciosamente, mas destruídos com grande velocidade.

Uma visão além dos organogramas

O futuro dos cargos talvez não seja definido pelo desaparecimento das profissões, mas pela combinação entre especialidade e arquétipo. O conhecimento técnico continuará oferecendo profundidade. Os arquétipos indicarão como essa profundidade é colocada a serviço do negócio, dos clientes e da sociedade.

A provocação de Cherny nos convida a olhar para além dos organogramas. Em um mundo no qual as fronteiras entre funções se tornam mais porosas, a pergunta decisiva não será apenas “qual é o seu cargo?”. Será também: que tipo de transformação você sabe produzir e em que momento da jornada sua contribuição é mais valiosa?

Essa mudança representa mais do que uma evolução semântica. Ela aponta para uma nova arquitetura do trabalho, na qual carreiras poderão ser construídas menos como escadas lineares e mais como repertórios de atuação. As empresas que compreenderem isso terão melhores condições de formar equipes capazes de imaginar o futuro, construí-lo, aprimorá-lo e sustentá-lo.

Close
Claudia Eliza © Copyright 2020. All rights reserved.
Close