O ano de 2026 já se mostra como um verdadeiro ponto de inflexão na tapeçaria das relações globais. O relatório “Top Risks 2026”, da Eurasia Group, traz um horizonte de incertezas e transformações profundas.
Ao contrário do que muitos imaginam, as maiores ameaças não residem em embates diretos entre superpotências, que estamos acompanhando, mas sim em um intrincado emaranhado de desestabilização interna nos Estados Unidos e em uma revolução tecnológica sem precedentes, carente de governança.
Para o mundo corporativo, isso significa que o baralho de riscos teve suas cartas embaralhadas e as regras do jogo estão em constante redefinição. As empresas e os investidores que souberem antecipar e adaptar-se a essas mudanças terão uma vantagem competitiva inestimável. A era da previsibilidade cede lugar à gestão contínua de cenários voláteis, onde a agilidade e a resiliência serão moedas de alto valor.
Não se trata apenas de reagir a eventos, mas de construir estratégias que incorporem essa nova realidade, transformando ameaças em oportunidades, ou ao menos, mitigando seus impactos mais severos. É tempo de olhar além dos balanços e entender as forças subjacentes que remodelam o ambiente de negócios global.
A seguir, uma análise dos principais riscos apontados pelo relatório.
EUA: o epicentro da incerteza
No coração da convulsão de 2026 está a revolução em marcha nos Estados Unidos. A maior economia do planeta, que por décadas ancorou a ordem global, torna-se agora a principal fonte de instabilidade. A erosão das instituições e a politização do aparelho de Estado criam um ambiente de negócios onde a previsibilidade jurídica e regulatória é uma miragem.
Líderes empresariais precisam entender que a governança corporativa se estende agora à governança geopolítica: mapear a exposição a um governo volátil, diversificar parcerias e não apostar todas as fichas na estabilidade tradicional são imperativos. A inteligência política, antes um acessório, agora é um requisito fundamental para a sobrevivência corporativa.
Esse cenário é amplificado pelo capitalismo de estado com características americanas, uma fusão inesperada de liberalismo e intervencionismo. A administração, movida por imperativos eleitorais, não hesitará em usar seu poder para moldar setores, favorecer empresas alinhadas e até mesmo intervir diretamente em investimentos. Isso cria um campo de jogo desequilibrado, onde a produtividade pode ceder lugar ao alinhamento político.
Para o setor privado, o desafio é duplo: manter a integridade e a eficiência, ao mesmo tempo em que desenvolve uma capacidade sofisticada de navegação em águas onde o Estado é um jogador ativo, não apenas um árbitro. A liderança precisa blindar suas estratégias de longo prazo contra os ventos efêmeros da política.
A assertividade americana se projeta também na Doutrina Donroe, uma reinterpretação agressiva da política de Washington para o Hemisfério Ocidental. Medidas enérgicas, como a observada na Venezuela, podem, paradoxalmente, gerar mais instabilidade do que controle, inflamar nacionalismos e empurrar países para órbitas de influência rivais, como a China.
Para empresas com investimentos na América Latina, o risco político se intensifica, exigindo avaliações de cenários mais robustas, planos de contingência para interrupções operacionais e uma diplomacia corporativa que equilibre interesses com o respeito à soberania local. A capacidade de construir pontes, em vez de muros, será um diferencial.
As rachaduras no Velho Continente
A Europa, por sua vez, mostra sinais de fragilidade preocupante, encontrando-se “sob cerco”. A fragmentação política interna, impulsionada por populismos e a inabilidade de governos em lidar com desafios econômicos, mina a coesão do bloco. Essa vulnerabilidade é explorada por atores externos, o que resulta em um ambiente de negócios menos dinâmico e mais imprevisível para investidores.
Os líderes europeus enfrentam o desafio hercúleo de reconstruir o consenso e a eficácia, e as empresas devem se preparar para uma Europa mais lenta em decisões, com mercados mais voláteis e regulamentações fragmentadas. A adaptabilidade será a chave para transitar por este mosaico de interesses.
Adicionalmente, a segunda frente da Rússia adiciona uma camada de risco sem precedentes. Não se trata de uma guerra convencional, mas de uma intensificação da guerra híbrida contra a OTAN, com ataques cibernéticos a infraestruturas críticas, sabotagens e interferência eleitoral. Essa estratégia de “zona cinzenta” aumenta dramaticamente a probabilidade de incidentes que podem ter consequências físicas e econômicas severas.
Empresas, especialmente aquelas com operações na Europa ou que dependem de cadeias de suprimentos críticas atravessando a região, devem investir pesadamente em cibersegurança, resiliência operacional e planos de resposta a crises. A proteção de ativos digitais e físicos torna-se um pilar estratégico.
O desafio asiático
Mais à leste, a armadilha de deflação da China é um risco sísmico que pode reverberar globalmente. A economia chinesa, impulsionada por uma demanda interna fraca e excesso de capacidade, pode inundar os mercados globais com produtos baratos, gerando deflação em outros lugares e intensificando o protecionismo comercial.
Isso força as empresas a um doloroso ajuste: ou aceitam margens mais apertadas e uma competição feroz, ou diversificam suas fontes de produção e mercados para mitigar a dependência chinesa. A liderança precisa reavaliar profundamente a estratégia de suprimentos e vendas, considerando que a “fábrica do mundo” pode também exportar desequilíbrio.
A face oculta da tecnologia
A fronteira da inovação, a IA, embora promissora, também esconde uma ameaça insidiosa: ela devora seus usuários. A pressão para monetizar investimentos maciços pode levar à criação de modelos de negócios que, como já vimos nas redes sociais, priorizam o engajamento e a extração de dados sobre o bem-estar e a autonomia humana. Isso levanta questões éticas profundas e o risco de um backlash regulatório e social significativo.
Empresas que desenvolvem ou empregam IA devem adotar uma abordagem de “IA responsável” desde o início, construindo confiança através da transparência, da proteção de dados e do foco no valor humano. A liderança precisa garantir que a busca por lucro não sacrifique os valores fundamentais, sob pena de perder a licença social para operar.
Em meio a esse caldeirão de desafios, a história não está escrita. 2026 não é um ano para ser enfrentado com temor, mas com uma determinação estratégica renovada. A liderança empresarial tem o poder de não apenas reagir a essas forças, mas de moldar sua resposta, transformando cada ponto de risco em uma oportunidade para inovar, para fortalecer a resiliência e para redefinir o que significa sucesso em um mundo em constante movimento.
O grande teste é, em essência, um convite à reinvenção.
